Tango e Che
Hoje retorno ao Rio de Janeiro. 11 dias em Buenos Aires, com uma passagem pela linda e encantada, Colônia Del Sacramento (Uruguai). Alguns devem estar pensando: terra do tango, do Maradona, de política, etc etc etc. E eu diria, terra de gente. Com tudo de bom e de ruim que isso implica. Vi pessoas muito educadas dando esclarecimentos e informações com satisfação por faze-lo. Vi uma história salva nos muros e exposições de forma comovente. Vi representações populares sobre a independência, que comoveram a mim, que não estou acostumado a ver povo em monumentos oficiais. Vi um sentimento de pertencimento a América que me deu vontade de pedir licença “para brincar também”. E claro, vi pobreza, injustiça, e até fui furtado para completar o quadro humano. Então, que Buenos Aires é esse? Ora, é esse! Lindo, acolhedor e humano. Com suas belezas e mazelas a flor da pele. Com uma urbanização absolutamente diferente da nossa, logo interessante de se conhecer. Com um patrimônio arquitetônico assustadoramente lindo. Com tango, que para além dos clipes “fantásticos” é qualquer coisa fora do descritível. Vi uma cidade encantadora pelo que tem de passado e, talvez, ansiando por um futuro. Vi Mac Donald, Burguer King, Igreja Universal, Igreja da Graça de Deus (viram, não há cidade perfeita...rs). Vi de tudo. Vi muito. E me encantei. Não queria tirar conclusões, porque elas dirigem resultados. Mas, duas coisas ficaram claras. 1_ Se nos permitirmos sair do lugar comum dos rótulos baratos e da crença de uma rivalidade que, absolutamente, não existe, ganharemos muito em todos os sentidos. Quem sabe sermos menos brothers e mais hermanos, sem que isso seja deboche? 2_ Se eu tivesse que definir Buenos Aires, sim, definiria com o tango. Não pelo clichê. Mas pelo passado que carrega em seu olhar, pela capacidade de se entregar, pelo que ferve em suas veias e pelo que há de melancólico. Levo daqui, dentre tantas lembranças e vivências, uma foto de um casal dançando tango na rua, com um Che pichado na parede em ruínas, ao fundo. E nem fui eu quem encomendei essa foto! LADO B→ Apresentamos no Lado B dessa semana, ADRIANA RIOS. Brasileira, morou nos EUA e mora desde muito em Buenos Aires. Cantando Bossa Nova, afina como poucos a sensibilidade e as notas. Adriana é Buenos Aires e é mundo. E agora é Contramão. Aqui, nos presenteia com MEDITAÇÃO. http://www.youtube.com/watch?v=ymrZJTOhqFE a, e at vi pobreza, injustios a a Amumentos aficiais.rma isso mplica.
Escrito por Marcelo Biar às 10h46
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A torneira anti horária_ Primeiras impressões de los hermanos
Desde que pisei em solo portenho me veio a vontade de escrever sobre. Contudo, resisti ao máximo. Achei precipitado. Continuo achando, mas o farei. O farei sem querer estar certo de nada. Sem querer ter encerrado questões. Mas, talvez dividindo impressões epidérmicas, por que não? A chegada em Buenos Aires, dia 30/12, 22h, me deixou assustado. Na porta do aeroporto, Corsas, Logans, todos os carros que estamos acostumados preparavam-se para pegar a auto pista iluminada por um enorme letreiro do Itaú. Naquele momento entendi que, talvez, quando vamos às urnas votar para presidente, não estamos escolhendo o “síndico”do prédio, mas o “porteiro”. Na verdade, não sei porque me espantei. O que passei a ver no dia seguinte me tranqüilizou. Vi um centro de cidade, embora sujo, absolutamente humanizado. Pessoas correndo, ciclovias, cafés com mesinhas na calçada (que tal isso na Avenida Rio Branco?) e uma arquitetura encantadora. A presença do XIX/XX é total. As comparações com o Rio de Janeiro foram inevitáveis. Lembrei que muitos acusam os argentinos de se sentirem europeus. Lembrei então que temos nossos prédios da Belle Epoce. A diferença é que um dia quisemos dizer ao mundo que nos modernizamos e que não éramos mais uma capital escravista (Reforma Pereira Passos). Negamos nosso passado e buscamos ser “mudernos”. Aqui me parece que não. Novos prédios se afirmam como novos e como continuação de uma história. Harmonia entre passado e presente. Visitei a livraria ATENEU. Imaginem o teatro Municipal do RJ virando uma biblioteca. Pois é... Fora o prédio lindo, essa livraria também oferece outras surpresas. Sim, tinha Paulo Coelho. Mas numa prateleira de canto. Na entrada não vi Augusto Cury, agendinhas, etc. Tinha livro. Literatura! Todos os estilos se revezam cada qual em seu lugar. Tinha Che. Não em camisetas. Não como um “produto”nacional. Mas como uma produção que deve ser lida. Tinha Jorge Amado, Guimarães Rosa. Tinha livro! Juntei isso com o preço da gaseosa (refrigerante), bastante caro, e me tranqüilizei. A globalização não entra em todos os lugares de forma igual! Eu estava numa livraria do país que tem uma das maiores médias de leitura por pessoa, do mundo. O povo, reservado, não foge de um papo ou de uma ajuda. Sim, eu vi uma camisa a venda numa loja, absolutamente, para turista, que dizia: NÃO SOMOS APENAS PERFEITOS. SOMOS ARGENTINOS. Francamente, me pareceu mais um produto do que se deseja encontrar do que uma realidade sentida. Enfim, acho que o que mais esclareceu, até então sobre este povo, foram duas coisas. A primeira quando a caixa do mercado, em pleno dia 31, às 16h, se confundiu achando que estávamos no dia 30. A outra, e talvez mais contundente, foi quando me dei conta que a torneira do banheiro de onde estou abre em sentido anti horário. Não nos inquietemos. Eles não querem ser do contra. Apenas fazem de forma reservada seus próprios caminhos! LADO B→ Essa semana, na nossa primeira postagem internacional(rsrsrs) apresento o grupo OTROS AIRES. Trata-se de um grupo de tango que usa elementos eletrônicos. Muito interessante observar que, tal modernidade, não afetou a estrutura do tango tradicional. Aliás, cabe destacar, que, apesar da batida eletrônica, esse tango continua se prestando a dança do próprio tango. AMOR QUE SE BAILA_ Otros Aires http://www.youtube.com/watch?v=2n8DO3JxSUs&feature=related
Escrito por Marcelo Biar às 09h37
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Especial Contramão de fim de ano
Fim de ano e o Contramão resolveu fazer, também ele, seu especial. Nada de Xuxa, Roberto Carlos etc. Preparamos (eu) um especial Chico Buarque. Mas o que há de novo nisso? Tudo, afinal, quem se lembra da última vez que ele esteve na telinha? Ele, pasmem, também é contramão. Mas a novidade é que selecionamos (eu) 13 músicas. E, absolutamente contramão, a maioria não é conhecida. Pérolas quase inéditas. Divirtam-se e que nos encontremos muito mais em 2012! As músicas estão aí para serem descobertas. O outro mundo também! 1_ Valsa Brasileira _ Chico Buarque e Edu Lobo http://www.youtube.com/watch?v=rYcE8giSdpo 2_ Acalanto _ Chico Buarque e Edu Lobo (na voz de Ivan lins) http://www.youtube.com/watch?v=pRufjYCTTuY 3_ Sem Fantasia _ Chico Buarque (em duo com Maria Betania) http://www.youtube.com/watch?v=MRyOeRCkZYc 4_ Você Você (Canção Edipiana) _ Chico Buarque e Guinga (voz Mônica Salmaso) http://www.youtube.com/watch?v=hKbIit7RKyc 5_ Com Açúcar e Com Afeto _ Chico Buarque (voz Nara Leão) http://www.youtube.com/watch?v=V-u8WZBcn6w 6_ Canção Desnaturada_ Chico Buarque (voz Chico e Elba Ramalho) http://www.youtube.com/watch?v=GMcr1O4TniY 7_ Palavra de Mulher _ Chico Buarque (voz Elba Ramalho) http://www.youtube.com/watch?v=QCIlVX9lw20 8_ Tira as Mãos de Mim_ Chico Buarque http://www.youtube.com/watch?v=QR7EcT2rMGo&feature=related 9_ Eu Te Amo _ Chico Buarque e Tom Jobim http://www.youtube.com/watch?v=ZAh7pJCzDNY&feature=fvst 10_ Cálice _ Chico Buarque e Gilberto Gil. (voz Chico e Milton Nascimento) http://www.youtube.com/watch?v=26g1jQG-n4Y&feature=fvsr 11_ Levantados do Chão_ Chico Buarque (composto para o CD que acompanhou o livro TERRA do fotógrafo Sebastião Salgado, com prefácio de José Saramago) http://www.youtube.com/watch?v=kUZtnm-HKs8 12_ As Vitrines _ Chico Buarque http://www.youtube.com/watch?v=22gfX2CS-YE 13_ Mil Perdões _ Chico Buarque (voz Gal Costa) http://www.youtube.com/watch?v=2PE3ST1Z35c
Escrito por Marcelo Biar às 23h17
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Santos, Barcelona e o Pacto Colonial
A relação metrópole e colônia sempre gerou problemas sérios. A metrópole vive da colônia, mas a despreza. Na colônia, o “povo” muitas vezes sem identidade local definida, ou ao menos consciente, vive sua opressão sem maiores perspectivas. Mas a parte mais triste talvez caiba a elite colonial. Ela crê ser melhor que seu povo e, no discurso, se vê como a elite metropolitana. Mas, no fundo, nem ela acredita nisso. Ela cultua a metrópole que a vê como colônia, embora elite. Quando a família real aqui chegou em 1808, aqueles que se pretendiam metropolitanos, se esforçaram demais para se mostrar a corte recém chegada, como seus iguais. Se esforçaram sem êxito. Ficou claro à todos seu caráter rústico. Ontem isso se repetiu. Acordei cedo para ver o jogo Santos X Barcelona. Teve um momento que achei que havia colocado em canal errado. Pensei que fosse o History Chanel. Mas infelizmente não era. Era o Santos recebendo o Barcelona e quase pedindo autógrafo a seus jogadores. Ah esses colonos... Que pena! Se aqueles mestiços se aceitassem mestiços e não quisessem ser europeus... Se fizessem seu samba em vez de ficarem constrangidos sem saber a valsa... Enfim, “se” não joga nem faz história. LADO B→ Com total sintonia entre as cordas (vocais e do violão) a dupla Carol Andrade e Alex Maia nos oferece um trabalho autêntico e com forte identidade. Eles são de São Paulo e aqui podemos ouvir a composição VENTOS. http://www.youtube.com/watch?v=Vb4GyUcxcFQ
Escrito por Marcelo Biar às 13h46
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Sobre formigas e gigantes
Toda criança, pelo menos do tempo de minha infância, já brincou com formigas. Eu não fui exceção. Até os 7 anos de idade morei numa casa com amplo quintal e vivi essas experiências. Me impressionava a diferença de tamanho. Vira e mexe, vamos admitir, pisava em uma formiga ou a amassava entre os dedos, muito impressionado com a facilidade com que elas sucumbiam. Haviam também aquelas pequeninas que faziam caminho pelos azulejos da cozinha. Essas, por muitas vezes, venci com um isqueiro. Uma simples chama era capaz de dar conta de toda trilha adversária. Outras vezes apenas as colecionei em vidros de maionese ou similares. Dentre todas essas experiências vividas, à época, o que mais me impressionava, era a facilidade com que era possível mata-las. Na verdade a desproporção entre nossos tamanhos. Logo, junto a coleguinhas, imaginávamos como seria um gigante nos apertando entre o indicador e o polegar. O tamanho que ele deveria ter para fazer isso sem que pudéssemos reagir. Como é boa a inocência da criança. Como é infantil matar formigas. Hoje, certamente, relembrando aquilo, o que mais me impressiona são duas coisas: Uma é lembrar de como as colocava num pote e suas vidas seguiam sem maiores transtornos. Sem revoltas ou tentativas de determinar seus destinos. Apenas continuavam dentro do pote. A outra é que quando tinha uma seqüência de formigas e matávamos uma delas, as demais seguiam sem se abalar. Não era estranho a elas uma formiga ser sacada do grupo ou morta. Nada abalava seu cotidiano. Como era bom aquele tempo em que achávamos que para alguém fazer isso conosco teria que ter 20 metros. Como era bom quando acreditávamos ser muito maiores e melhores que formigas. LADO B→ trazemos a vocês, nessa semana, BETO GAPARI. De Duque de Caxias (RJ), baixada fluminense, Beto trás em sua música um Brasil de vários cantos. Conheçam aqui, ANGÚ COM QUIABO. http://www.youtube.com/watch?v=7upi_MfRczg&feature=related
Escrito por Marcelo Biar às 08h55
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Sócrates não é marca de café!
Domingo, dia 04 de dezembro de 2011. Fim do ano, fim do campeonato brasileiro, fim de semana e fim da vida para o Dr. Sócrates. Chego em casa e assisto na TV o time do Corintians homenageando o doutor com todos os seus jogadores em volta do grande círculo, punho cerrado, mãos ao alto, tal qual ele comemorava seus gols. Isso me fez pensar sobre os fins... Os inícios... Será que esse grupo de jogadores sabe porque o Sócrates comemorava gols assim? Será que sabem que o punho cerrado é o símbolo do socialismo e que, além de Reinaldo (ex atacante do Atlético mineiro), Sócrates o fazia por afirmação de suas convicções? Quem sabe que ambos foram advertidos por generais da ditadura sobre a inconveniência deste gesto? Quantos já ouviram falar da democracia corintiana, que no final da ditadura foi liderada pelo doutor e que questionava os valores autoritários na estrutura do futebol? Para além de seus valores ideológicos, sua honestidade de conduta que fez com que nunca optasse pelo caminho conveniente da grande estrutura do capital/futebol, Sócrates ainda fez parte de algo mágico_ a seleção de 1982. Que tinha Zico, Falcão, Junior, Leandro, Telê, etc Seleção imortalizada na história do futebol. Que mal foi para o mundo e o futebol o Brasil não ter ganho a copa, fazendo daquele futebol o paradigma! Não, para além das coincidências hoje não foi o fim de nada. Não acabou novela alguma e o destino não ficou consolidado dessa forma. O Corintians e sua diretoria atrelada à CBF não será campeão para sempre, nem Sócrates sucumbiu. Os dados estarão sempre rolando. Por justiça peço que não eternizem Sócrates como ídolo corintiano apenas. Nem tão pouco pelos seus calcanhares. Ele foi personagem importante da redemocratização do Brasil e será referência sempre que se discutir o futebol e se desejar transforma-lo. Sócrates não é marca de café. Saudações camarada! LADO B→ Hoje o lado B apresenta Eudes Fraga. Do Ceará, passando pel Rio de Janeiro e pousado no Pará, Eudes trás o ritmo e a delicadeza da canção brasileira. Vejam aqui BAILARINA. http://www.youtube.com/watch?v=7n_weWLJZFA&feature=related
Escrito por Marcelo Biar às 23h45
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Minhoca da boa
É muito complicado. Imaginem se o peixe fosse ser comentarista de um campeonato de pesca. É assim que me sinto às vezes. Nascemos e crescemos, no amplo sentido do termo, nessa sociedade. Nessa que nos deforma, que nos molda em suas mediocridades. Escapamos de alguma forma do grande saco onde ficam aqueles que não sabem quem são. Começamos a analisar a realidade, negar os caminhos que nos são determinados e queremos escrever nossas rotas. Mas comemos minhoca. Crescemos comendo e desejando comer minhoca. Vence quem come as melhores, as mais suculentas, quem as possui só por possuir... Mas queremos romper com essas regras. Não queremos mais ser vitoriosos do campeonato alheio. Mas quando tentamos partir nos descobrimos presos. Isso mesmo. O forte fio de nylon lá está, entre nós e eles. Sim, engolimos o anzol. Como coloca-lo para fora, cortar as amarras? Como inventar outro fio de nylon? E olha que eles são finos e invisíveis! Temos mesmo que ver a Globo? Quanto de dinheiro precisamos? E as vezes que dissemos ...” isso é assim mesmo”, quantas vezes é assim mesmo? Quando nos achamos legais? Quando fazemos o que eles acham legal? Minhoca é tão bom assim? Vejam por exemplo esse blog http://a8000.blogspot.com/2011/11/primeira-pagina-do-g1-rocinha.html Nele aparece uma foto da rocinha , publicada no Globo, onde uma faixa com os dizeres PAZ E JUSTIÇA SOCIAL” é editada e aparece no jornal sem a parte da “justiça social”. Pensando bem, minhoca é um nojo! LADO B_ Essa semana nossa “coluna” vai a Campinas/ São Paulo. De lá, dentre tantos talentos, apresentamos TAIS REGANELLI. Cantora e compositora de muita personalidade, não se rende às tendências apresentadas pela mídia e nos presenteia com um trabalho novo e, ao mesmo tempo, referenciado na mais autêntica música brasileira. Nesse link, AMBIGUO, parceria sua com Nando Freitas. http://letras.terra.com.br/tais-reganelli/1470706/
Escrito por Marcelo Biar às 12h00
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A Sociedade da Verdade
Vem aí a Comissão da Verdade. Pela primeira vez o Brasil tocará na questão da tortura feita no período da ditadura militar. Sim, alguns afirmam que ainda é pouco. Que não terá poder de juízo. Mas é um castelo de areia. Basta começar a escavar que aos poucos ruirá. Na Argentina, torturadores foram condenados. Aqui não chegamos a esse ponto. Ainda, espero. Mas o que mais me importa nesse momento é refletir sobre como chegamos ao ponto de torturar. Falamos muito dos períodos ditatoriais e, a despeito da existência da tortura e da própria ditadura ser, em si, um absurdo, precisamos entender que, se a tortura não existisse de forma corriqueira em nossa sociedade, não seria usada e aceita em momentos de exceção. Sim, é um absurdo prender e torturar um pensamento antagônico. Mas é, antes de mais nada, um absurdo torturar. Hoje o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Cerca de 400 mil presos. O Rio de Janeiro contribui com 26 mil. Estão pensando que falarei sobre pau de arara... Eletro choque... Não mesmo. Mas que tal saber que estes não recebem do Estado que os acautela, água potável. Que defecam em buracos no chão (boi), que devem se dirigir a um funcionário do presídio com suas mãos para trás e cabeça baixa, que só possuem água para banho, higiene e beber, em alguns momentos do dia, dentre outras coisas. Alguns me dirão, “mas um cara que mata... seqüestra... tem mais é que ser tratado assim”. Pode ser, mas na ditadura faziam isso com os presos porque esses eram vistos como marginais... terroristas... subversivos... Enfim, não se trata do que se fez individualmente, mas de uma prática de Estado e da cultura que se cria sobre o ser humano. Herdeira da escravidão, enquanto acharmos normal pessoas serem torturadas, sejam elas quem for, e viverem à margem do direito, nossa sociedade estará sempre pronta para fazer de nós a próxima vítima. LADO B→ Lá se vão mais de 30 anos que o Brasil conheceu a música Bandolins, de Oswaldo Montenegro, interpretada pela voz do próprio de Zé Alexandre. De Brasília, do Rio de Janeiro, hoje, de Minas, Zé Alexandre até hoje nos presenteia com uma das mais belas vozes do Brasil. Vejam aqui em CANTO DE FOLIA, parceria sua com Paulo Delfino. http://www.youtube.com/watch?v=9oC7A8qWFyk
Escrito por Marcelo Biar às 11h35
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O bem, o mal e o rabo da lagartixa
Devo ser muito chato. Por que não acho o mundo maravilhoso? Pensei. Os EUA ocuparam o Iraque, prenderam e executaram Sadam. Executaram Bin Laden. Kadaf caiu. O Morro do Alemão foi ocupado e pacificado. A PM está na USP combatendo os “maconheiros”. A Rocinha foi ocupada pelas forças do bem e o Nem foi preso. O povo unido ocupou as ruas do Rio de Janeiro para reivindicar seus royaltes. Lá vi Carlos Minc abraçado a Francisco Dorneles, em um exemplo lindo de superação das diferenças (realmente acho que estão cada vez mais parecidos). O que falta realmente, para sermos felizes? Esse negócio de pensar não faz muito bem mesmo. Dá para ser feliz pensando? Deve ser por isso que as universidades se empenham tanto no sentido contrário. Deve ser para nos propiciar a felicidade. Quem dá aula explicando o real sentido das cruzadas tem o direito de não entender os fatos descritos acima? Criticamos tanto a colonização e a Educação Jesuítica que dominaram os índios negando sua cultura e aplaudimos o discurso da ocupação da Rocinha. Não, não sou a favor do tráfico. Mas não aceito a construção do bem X mal refletidos na luta asfalto X morro. Nem tão pouco o discurso de que no morro tem muita gente boa e que precisa ser salva. Essas visões são preconceituosas. Nem o morro é ocupado por bandidos, nem por pessoas incapazes a espera de redenção da elite. Ok, esqueçam esse parágrafo acima. A vida é bela! A sorte do bem é que o mal cresce como rabo de lagartixa. Do jeito que andam acabando com o mal, se ele não crescesse de novo ia ser difícil explicar porque não vivemos no paraíso. LADO B → Trazemos essa semana BILORA. Violeiro mineiro da melhor qualidade. Fiel às suas origens, entalha suas melodias e letras como quem acaricia a terra com a enxada que pede licença para semear a terra. Eis o link de TEMPO DAS ÁGUAS http://www.youtube.com/watch?v=AxkWxC7Kk5k
Escrito por Marcelo Biar às 11h01
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Os fora da lei (de incentivo à cultura)
Para que servem as leis de incentivo à cultura? Incentivam o que? A quem? Funcionam assim: Você tem um projeto. Submete a uma órgão governamental e este te da a chancela ou não. Isso não quer dizer que você conseguiu o apoio financeiro, mas apenas, que você já pode tentar captar recursos junto à iniciativa privada. Tendo conseguido, de modo geral, o valor do apoio será dividido em 6 partes. 5 partes correspondem a um valor que o governo deixa de arrecadar, fazendo com que a empresa passe esse recurso direto ao projeto beneficiado. A sexta parte sai realmente dos cofres da empresa. Logo, resumindo, o governo autoriza o processo, mas quem escolhe o perfil de projeto é a iniciativa privada. Assim, ambos colocam suas marcas no projeto, embora o governo entre com 5/6 e a empresa privada 1/6. Algumas conclusões rápidas: _ O governo entra com 5/6 do projeto, mas quem escolhe o projeto é a iniciativa privada. _ A política cultural no Brasil passa a ter forte influência da visão de mercadológica, já que a iniciativa privada visa lucro e visibilidade, e não preservação ou cultura enquanto elemento estratégico de formação e afirmação de identidade. _ O Estado financia em 5/6 uma ação empresarial. _ Manifestações culturais autênticas continuam expostas à sorte. Isso já poderia ser o suficiente para nos preocuparmos bastante. Mas tem mais. Vendo alguns resultados de editais de fomento à cultura podemos perceber nomes consagrados de nossa música, por exemplo, sendo contemplados. “Que injusto”, podemos pensar. “Eles não precisam”. Mais conclusões: _ Forma-se um ciclo que não permite a renovação cultural no Brasil. _ Aqueles que não conseguem furar o bloqueio mercadológico continuam à margem do processo. _ As leis de incentivo e editais públicos reafirmam a situação cultural, contrariando seu papel de origem. Para finalizar... _ Alguns desses nomes consagrados precisam sim, de incentivos. O problema é que isso denuncia a falta de espaço de apresentações e público no Brasil. E, esse problema, para além de ser episódico, está se mostrando uma tendência consolidada. Consolidada, inclusive, pela política de editais e leis de incentivo que, em última instância, estão servindo para reafirmar o caos cultural imposto pela ótica do mercado. LADO B: Essa semana apresentamos ADOLAR MARIN. De São Paulo, Adolar tem dois CDs e é dono de um trabalho maduro que passeia por várias tendências. Nesse link podemos ouvir BAIÃO DE UM . http://palcomp3.com/adolarmarin/
Escrito por Marcelo Biar às 08h38
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Escravos letrados ?
( A partir dessa postagem, o CONTRAMÃO passará a indicar um link de um cantor ou compositor brasileiro. O critério de escolha será a qualidade do mesmo e o fato dele não pagar o famoso JABÁ das rádios e TVs para aparecerem. Vamos, mais uma vez, na CONTRAMÃO, afirmando e buscando nossa identidade!) O Rio de Janeiro cresceu, na segunda metade do século XIX, com a ajuda do bonde e do trem. Esses permitiram a expansão da cidade com vínculo com o seu centro. O seja, os “pobres” foram sendo expulsos do centro, seja pela especulação, ou mesmo pela polícia, e ocuparam o que passou a se chamar “subúrbio” ( sub – urb/ sub- cidade). Pois é, lá se vão 38 anos que eu moro no Grajaú. E gosto muito disso. O que não gosto é do fato de continuarem lançando mão de artifícios para demarcar diferenças sociais. Por que na zona norte e oeste só temos cinemas que passam filmes comerciais? Por que tenho que ir ao Estação Botafogo ou ao Artplex para ver os filmes que gosto? Por que só no supermercado Zona Sul, posso comprar cervejas diferentes? Por que supermercado Pão de Açúcar, na zona sul, tem uma prateleira de café especial e na zona norte não? Por que os teatros ficam no centro e zona sul e as lonas culturais na zona norte e oeste? Por que na zona sul não tem posto com GNV? Que o bonde e o trem tenham servido para definir a questão social pela relação espacial vá lá. O perverso é que se continue afirmando a diferença pela oferta mercadológica. Digo que é perverso, não só pela necessidade de afirmação, mas pelo caráter falso da mesma. Canso de encontrar amigos/ vizinhos nesses cinemas, de trocar dicas de café e cerveja com os mesmos. Enfim, para que isso então? Será uma afirmação da hierarquia através dos bairros? Uma submissão forçada dos periféricos? Será a tentativa de afirmar a inferioridade de uns na medida que tem que se submeter a ofertas que só em alguns lugares podem ser encontradas? Seja qual for a resposta a mistura da subjetividade da dominação contemporânea com a mentalidade escravista tá garantida. Como é cruel o capitalismo nos locais de herança escravista! Como é ruim ter uma burguesia que nunca fez revolução! LADO B→ Marianna Leporace é cantora de longa estrada. Carreira coerente e bela voz, acaba de lançar o CD INTERIOR. Eis aqui uma faixa para livre degustação: http://www.youtube.com/watch?v=p8IbHUOA08c (Perdido no meio das ondas_ Daniel Gonzaga)
Escrito por Marcelo Biar às 10h35
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Tem alguém se fantasiando de capeta
Sempre que denunciamos ação escrota de nossa elite para manter seu poder, alguém diz que estamos crendo na Teoria da Conspiração. Talvez tenham razão, afinal, nossa classe dominante nem é famosa por ardilosos golpes cotidianos. Na verdade, esses que dizem que vivemos vendo conspiração em tudo, devem ter uma fé incrível no capeta. Só isso explicaria o acaso desastroso que governa o mundo. Então ta, eu me rendo. A Globo não sonegou informação sobre os Jogos Pan Americamos porque a cobertura foi feita pela Record, nem tão pouco está fazendo caminho fundo para desestabilizar o Ministro do Esporte, porque o mesmo não intercedeu para que ela tivesse o direito sobre essa cobertura. Da mesma forma não há uma campanha forte contra o ENEM que, em última instância, é um caminho para acabar com o elitismo do vestibular. Claro, meus enganos não param por aí. A Globo também fala do Ministro do Esporte e não do Ricardo Teixeira, porque esse é honesto. Mas podemos descansar enquanto assistimos pessoas comerem baratas no inteligente programa Hipertensão, num exercício pedagógico de formar uma população que entende que vence quem se submete mais. Cansaram? Liguem o rádio, ouçam uma música. Esse que toca nesse momento, o faz porque pagou para que a rádio o colocasse lá e desse a impressão de seu sucesso.
Escrito por Marcelo Biar às 16h12
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Mundo, mundo, vasto mundo...
A música que eu gosto não toca na maioria das rádios, ou é cantada por milhares de pessoas. Os filmes que me dão prazer passam em salas restritas (nunca em shopings). Neles, raramente vemos explosões e carros capotando. Não tenho tesão em silicone e botox, e uma celulite, vez ou outra, me parece ser sinal de que aquilo, realmente, é uma mulher. Meu carro (ainda o considero um carro) é antigo, fora de linha e confortável (a mina cara). Não vou onde mais de cem mil pessoas vão. Não quero morar na Barra. Não tenho religião. Enfim, alguns acham que sou fora desse mundo. O que me espanta é o desejo, quase adolescente, das pessoas serem desse mundo que é a expressão mais viva do fracasso da vida em sociedade. Um mundo que produz mais alimentos do que seus habitantes precisam, e assistem pessoas morrerem de fome. Onde o presidente da nação mais poderosa executa pessoas sem que haja julgamento, e com isso angaria o respeito e admiração da maioria. Onde o fato de tudo virar mercadoria é sinal de modernidade. Nada contra quem é do mundo. Eu também quero ser, um dia. Mas, por enquanto, sou só do grupo daqueles que querem outro mundo.
Escrito por Marcelo Biar às 11h56
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a gente quer ter voz ativa.. mas ele toma uma Coca Cola
Vendo o documentário UMA NOITE EM 67, sobre aquele festival maravilhoso que premiou pérolas como PONTEIO, DOMINGO NO PARQUE, RODA VIVA, ALEGRIA ALEGRIA, etc, revi a velha polêmica de quem era o transgressor e quem era o careta. Ali, e depois dali várias outras vezes, se reeditou o debate do velho X novo. Quase sempre forjado por falsos argumentos. Aprendi que tudo que se auto intitula novo deve, no mínimo, receber nossa desconfiança. República Nova, Nova República, Estado Novo, Nova MPB... Na época, Caetano e Gil eram o novo, enquanto Chico e Edu, a reedição do velho. Por que paradigma? Ah sim, os baianos usavam guitarra elétrica e roupas diferentes das habituais. Sim, Chico e Edu, usavam traje a rigor. Não vim ao Contramão para reeditar a polêmica, mas para dizer que não caio nessa! Caso contrário, meninos com suas roupas de couro presenteadas pelos seus pais no natal, em pleno Rock in Rio, seriam revolucionários. Saber detectar o que deve ser rompido é uma arte. Roda Viva falava de uma ciranda do cotidiano no sentido amplo. Daquele ritmo produtivo que te absorve a não refletir, criticar, mas apenas trabalhar para o outro. Especificamente, Roda Viva, a música da peça homônima, falava da indústria cultural que transformava tudo em produto reconfigurando a arte, ou acabando com ela. Uma das primeiras denúncias a pós modernidade. Como assim... falando em pós modernidade em 67... industria cultural... isso não é exatamente velho. E os que hoje acham o debate ideológico e a crítica, chatos e ultrapassados, já faziam isso em 67. Nossa, como são velhos. .Existe uma indústria do novo. Isso é genial. Transformaram a transgressão em produto. Assim ninguém transgride e eles ainda faturam. Em tempos de pós modernidade, nada mais revolucionário que retomar raízes. Viva Noel... Viva Chico...
Escrito por Marcelo Biar às 14h25
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Espingarda de rolha não faz revolução
Quem se lembra das espingardas de rolha? Isso mesmo, espingardas que atiravam rolhas. E de usar uma dessas em parque de diversão para acertar os patinhos que subiam e desciam em um balcão em frente? Em caso de acerto de um certo número de patos, ganhávamos um brinde. Eu só não me lembro de alguém acertar os patos suficientemente. Já vi sim, acertarem um ou outro. Mas sabem o que acontecia, outro pato ascendia cumprindo o mesmo papel. Pois é, as vezes acho que continuamos brincando disso quando vejo determinados discursos contra os deputados. Atacam seus salários e suas práticas corruptas. O Sarney então, foi mais “homenageado” no Rock in Rio do que o Renato Russo. Ok, concordo que os salários parlamentares são altos demais e que suas práticas, em sua maioria, são equivocadas. Também não estou querendo defender o indefensável (Sarney). Mas chega de atirar rolhas em patos. Enquanto não percebermos que os deputados apenas representam os setores econômicos, estes sim, promotores das desigualdades, vamos brincar de gritar ao vento. Será que se tivermos deputados ganhando menos e sem promover a corrupção, a desigualdade no Brasil estará sanada? Temos que ter munição mais pesada e, principalmente, entender quem são nossos alvos.
Escrito por Marcelo Biar às 10h19
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